Conceber uma pesquisa nem sempre é fácil. Alguns alunos se queixam de estarem “completamente perdidos” sem ideias ou confusos quanto a escolha do que pesquisar por terem opções demais. O início do trabalho acadêmico é importante para todo o resto da pesquisa e vou continuar a falar sobre isso com vocês.
Como já disse no texto anterior, o problema de pesquisa e a pergunta de pesquisa são ferramentas conceituais que nos ajudam a ter uma orientação sobre o que queremos pesquisar. Elas podem ser complementadas com outras noções sobre as quais falarei hoje.
Neste texto, primeiro, trago algumas dicas de como ter uma boa ideia de pesquisa. São alguns critérios que podem ajudar a facilitar todo o processo de construção do trabalho acadêmico. Na sequência, falo de alguns elementos importantes para se ter em mente na hora de planejar e executar uma pesquisa: objeto de estudo, teoria, área e método.
Como facilitar a pesquisa desde o início
Ter uma ideia de pesquisa não é só um maneira de ter o que pesquisar, é também o germinar de uma semente que pode facilitar ou comprometer todo o trabalho. A seguir, aponto algumas dicas práticas que podem auxiliar a gerar e selecionar as ideias para um trabalho.
Pode ajudar escolher algo próximo da realidade do aluno. Muitos alunos optam por fazer pesquisa sobre seu trabalho, sua cidade ou algo que esteja próximo a eles. A familiaridade e proximidade fazem o trabalho fluir mais do que em contextos estranhos a ele.
Escolher algo útil pode ter um impacto na motivação. Como já disse várias vezes, as pesquisas ajudam a resolver problemas no mundo real. Quando o aluno realiza um estudo que resolve um problema útil, ele pode ficar motivado. O trabalho pode ser útil para sua carreira, seu trabalho, para sua família e assim por diante.
Relacionado a algo útil, temos também a possibilidade de escolher algo popular para estudar. Os assuntos que são de grande conhecimento público, que despertam atenção de muita gente, que são disseminados nos grandes meios de comunicação ou redes sociais ou que simplesmente são muito conhecidos em uma região são o que considero populares. Pesquisar sobre isso pode despertar grande interesse do aluno e motivá-lo a se dedicar.
Pesquisar algo com que o aluno tenha facilidade de entender também é interessante. Não só o que vai ser investigado, mas também a teoria e o método, quando são fáceis de o aluno compreender, vai tornar o trabalho mais agradável. Pode parecer óbvio mas já presenciei muitos alunos se atrapalharem por quererem realizar uma pesquisa muito difícil.
Também é uma opção escolher algo que o aluno goste. Algum tema pelo qual o aluno tenha algum afeto ou envolvimento pode gerar emoções positivas que o encorajam a enfrentar a jornada da pesquisa.

É importante ter em mente também a facilidade de acesso aos dados. Por exemplo, caso o aluno utilize a entrevista como procedimento de coleta de dados, ele precisa ter acesso às pessoas para entrevistar. Caso ele não tenha esse acesso, tudo fica mais difícil.
Por fim, caso o aluno esteja realmente perdido, a última dica é a de escolher algo que o orientador domine. O orientador será um guia por todo o processo e, quando ele trabalha com algo que já conhece, pode dar ao aluno orientações bem melhores do que algo que não tenha familiaridade. Nesse caso, é confiar e seguir o orientador pois ele é expert no assunto.
Note que é possível combinar várias dessas dicas. É possível ter uma proposta de pesquisa a partir da escolha de algo útil, popular e fácil de entender.
Amadurecendo sua ideia
As dicas anteriores ajudam a escolher um tema que será aprimorado e transformado em uma proposta de pesquisa mais robusta. Geralmente, é o orientador que vai definir melhor uma proposta de pesquisa. Mas, mesmo nesse caso, o aluno ainda tem responsabilidade pois vai executá-la e, para isso, é preciso compreendê-la. Nesse sentido, existem alguns elementos de uma pesquisa determinantes do sucesso ou não do trabalho.
Em outro texto, conversei com vocês sobre como a pesquisa busca resolver um problema. Sempre há algo que queremos saber para resolver alguma questão humana, seja a cura de uma doença ou modo de produzir computadores, tudo isso pode levar a uma pesquisa.
Também falei que, quando queremos informar o que queremos pesquisar, usamos uma frase no modo de pergunta. A pesquisa vai produzir uma resposta que vai resolver um problema.
O problema e a pergunta podem evoluir ao longo da pesquisa, conforme o pesquisador aprimora seu entendimento do que está em jogo na investigação. Essa melhor compreensão vai apontar naturalmente para a compreensão de elementos importantes para se estruturar o esforço acadêmico.
O primeiro desses elementos é o objeto de estudo. O objeto nada mais é do aquilo que se vai “observar” concretamente. Por exemplo, nos meus estudos sobre experiência do consumidor eu tento entender como acontece a experiência das pessoas ao curtir o São João. O que eu “observo” são esses consumidores do São João. São eles que vão me dar a resposta que eu quero, isto é, são esses consumidores que vão me fazer entender como é a experiência nesse contexto.
Notem que o termo “observo” está entre aspas porque não necessariamente a pesquisa envolverá olhar as pessoas executando alguma tarefa. Podemos entrevistá-las, por exemplo. O observar aí está no sentido de apontar qual será o foco da investigação ou qual será a fonte dos nossos dados.
O segundo elemento é a teoria. Há discussões longas e intensas sobre o que seria teoria. Para entendermos isso de forma rápida, imaginem teoria como toda explicação sofisticada sobre o mundo, o que as coisas são, como elas funcionam e assim por diante. Essa explicação vai ser sofisticada no sentido de ser abstrata e por isso ela pode soar profunda e técnica.

É a teoria que vai nos fazer conhecer mais sobre um assunto. Por exemplo, eu posso conhecer o São João visitando o evento. Mas não posso conhecer a história do São João dessa maneira pois não posso voltar no tempo e ir a todos os eventos passados. É em casos como esse que a teoria pode ajudar.
E por que usar a teoria? Porque ela amplia nosso conhecimento tanto nas questões básicas quanto nas mais avançadas. Se eu estudo experiência, precisei saber o que é experiência a partir dos estudos de outros autores que há anos se dedicam a isso, até mesmo antes de eu nascer. Fui beneficiado por uma vasta quantidade de teoria existente. E saber toda essa teoria ajuda o pesquisador a refletir melhor sobre o que ele está pesquisando no momento.
O entendimento da área de estudo também ajuda no amadurecimento da pesquisa. O mundo acadêmico é organizado em partes com estudos e pesquisadores orientados por essa organização. Em Administração, temos as áreas de Marketing, Gestão de Pessoas, Finanças, Operações… Entender bem qual é sua “caixinha” pode te ajudar a encontrar e entender melhor suas teoria e método, por exemplo.
O último elemento que gostaria de destacar é o método. Dito de maneira simples, o método é a maneira com que o pesquisador vai chegar nas suas conclusões, nas suas descobertas, conforme ilustrei em outro texto. Tecnicamente falando, é o modo com que se vai coletar e analisar os dados. Conforme o pesquisador entende o método, ele entende melhor sua pesquisa.
Com mais esse conjunto de conhecimentos, é possível se preparar melhor para os desafios de um trabalho acadêmico. Definir uma ideia fica ainda mais fácil integrando os conhecimento do problema de pesquisa, da pergunta da pesquisa junto com as dicas deste texto. Em um segundo momento, os elementos citados podem ajudar a se ter um melhor planejamento e execução dessa ideia.
