Como fazer uma pesquisa? Explicando com uma história de amor

8 mins read

Pesquisa é coisa de outro mundo? Não, nada disso. Os seres humanos têm uma sede natural por saber e a pesquisa apenas torna essa tarefa mais produtiva e segura. Mas, para alguns alunos, ela ainda é um mistério.

Essa aqui é uma pequena aula sobre pesquisa qualitativa de um jeito que você nunca viu. Quero mostrar de maneira didática como funciona uma pesquisa e como ela é simples e próxima do que fazemos no nosso cotidiano intuitivamente.

Notem as devidas ressalvas de que não estamos falando de uma pesquisa nos seus moldes mais rigorosos. O texto é dedicado à lógica por trás dela, um modo de pensar o processo que pode ajudar qualquer aluno nessa missão.

Alguns elementos importantes e bem comuns na pesquisa estão ilustrados aqui de maneira lúdica. Preparem seu senso poético e espero que gostem.

A mágica inquietação inicial

A história começa com nosso personagem principal em um dia comum cumprindo suas obrigações. Era fim de tarde e Vinicius acabara de chegar na universidade para o início de mais um período de estudos. Foi quando viu Marina. Ele precisou olhar duas vezes para entender aquela beleza. Cabelos loiros e ondulados e um olhar de dia no mar. Ali ele descobriu o que era amor à primeira vista.

Nem passava pela sua cabeça que ali começaria um jornada pelo mundo da pesquisa. De tudo que viu e sentiu surgiu um desejo: conquistar aquela garota. Também surgiu um problema: ele não sabia como conquistá-la. Esse era o problema que queria resolver, o problema de pesquisa. Ele precisava solucionar essa questão para continuar sua vida.

Vinicius já estava no fim do curso tendo aulas sobre pesquisa com o professor Rodrigo. As aulas o inspiravam a como resolver a sua pergunta de pesquisa e realizar seu desejo. Sem ele perceber, começou a montar algo como um TCC paralelo em que aprendia mais sobre Marina.

Ele teve uma ideia. Decidiu entender melhor como conquistar uma garota estudando a teoria sobre o assunto. Por onde começar? Como todos começam: pelo google! “Como conquistar uma garota?”, ENTER. Os sites não eram suficientes, ele queria algo em que pudesse confiar. Descobriu vários livros e artigos que falavam do assunto e tinha a ver com psicologia, sociologia, e filosofia.

Então nessa rodada de estudos ele concluiu que o amor era um fenômeno complexo relacionado a questões profundas do ser humano. Personalidade, sociabilidade, imaginação, papeis sociais, emoções, tudo isso estava em jogo e se tornavam vários pontos de partida para um possível referencial teórico. A partir de então ele entendeu melhor o que estava buscando e já se sentia confortável para registrar sua inquietação como uma pergunta: Como despertar emoções que o tornassem atraente para Marina? Essa era a pergunta de pesquisa, que focava em um dos conceitos que ele achou mais importante naquele mar de informação, a emoção. Ela o ajudava a dar um foco no seu problema de pesquisa.

A emoção foi o conceito que Vinicius escolheu para fazer um recorte de sua pesquisa

O método de conquista

Vinicius já sabia o que buscava mas não exatamente como conseguir a informação. Foi depois de uma das aulas do professor Rodrigo sobre método que ele percebeu que precisava de um. Pensou: para entender como despertar emoções na garota dos sonhos, preciso de informações sobre ela. Ele concluiu que precisava coletar dados sobre Marina. A observação não seria muito interessante, ficar olhando demais a vida alheia poderia fazer ele parecer um “stalker” e isso não ajudaria. Mas havia um outro caminho: as entrevistas. Vinicius poderia conversar com pessoas próximas a Marina e entendê-la melhor.

Nosso herói universitário então montou o plano perfeito. Ele diria a alguns colegas dela que estava organizando uma festa do seu curso e precisava de algumas informações sobre outros alunos para realizar pequenas homenagens. Montou dois roteiros de entrevistas: um fictício sobre vários alunos e a festa, e outro sobre a musa. Escolheu quem seriam os entrevistados pela qualidade das informações e pelo seu acesso a essas pessoas: a melhor amiga de Marina e uma colega de sala dela.

Mas ele tinha uma preocupação. As conversas podiam gerar muitos dados e ele poderia esquecer ou se perder no meio de tudo que coletaria. Ele precisava de uma maneira adequada de registrar de dados. Pensou em gravar a entrevistas mas isso poderia ser invasivo demais e chamaria muita atenção. Foi quando decidiu montar um sistema de anotações. Assim que fosse conversando, escreveria o que de mais importante foi dito para lembrar depois. Depois, digitalizaria e passaria o texto para um documento do word, tudo organizado em pastas na nuvem de acordo com data e com entrevistados.

Outro problema é que ele estava muito envolvido emocionante com o processo. Por um lado, aquilo o motivava, por outro, podia confundi-lo. Ele conseguia ver bem o que supostamente seria um papel do pesquisador. Se aquilo fosse uma pesquisa mesmo, aquilo seria um grande problema. Então ele se inspirou nos critérios de validade e pediu aos seus melhores amigos, Cecília e Manuel para que dessem suas visões, já que não estavam tão envolvidos. Eles poderiam alertar Vinicius caso suas emoções o atrapalhassem na busca pelas informações corretas. Foi sua maneira de criar um procedimento de triangulação.

Ele resolveu boa parte dos obstáculos até esse ponto, mas havia mais um: a ética. Será que o que ele estava fazendo era adequado? Isso o preocupou por vários dias. Certa vez ele desistiu de tudo por pensar que talvez não fosse a melhor coisa a fazer, buscar informações tão profundas sobre alguém sem qualquer tipo de controle. Nesse momento ele também pensou: – Mas será que é tão errado assim correr atrás de uma garota? Afinal, tudo é possível na guerra e no amor, não é? Vendo a angústia do amigo, Manuel deu o argumento final dizendo que ele não precisaria se preocupar tanto, afinal o que ele estava fazendo não era bem um pesquisa formal, ele não era um pesquisador, era apenas homem maluco apaixonado correndo atrás da felicidade. Ainda arrematou: – Tanta gente fazendo pesquisa na força do ódio e você com medo de fazer loucuras de amor…

O destemido conquistador então colocou em prática seu plano de entrevistas. Fez tudo como planejado. Agora ele tinha muita informação e teria que estudar tudo para entender Marina e responder a sua pergunta de pesquisa. Ele havia começado a fase de análise dos dados. Começou a tentar montar aquele quebra-cabeça. De início tudo parecia caótico, os entrevistados não sabiam exatamente o que ele queria e as conversas pareciam aleatórias em alguns momentos.

Análise é a fase de pensar, fazer anotações e gerar conclusões a partir dos dados coletados

Foi então que ele lembrou da teoria que havia estudado. Começou a perceber que havia informações sobre a personalidade de Marina, suas crenças, o que valorizava, sua visão de mundo… Assim ele foi recortando as falas das entrevistadas em pequenos pedaços relacionados à teoria. Ao fim, ele filtrou o que era realmente importante e estava tudo organizado, com rótulos que o ajudavam a se situar no meio do mar de dados. As falas dos entrevistados sobre a personalidade de Marina estavam em um arquivo, o que falava sobre crenças em outro e assim por diante. Cada fala dos entrevistados tinha uma indicação de texto apontando para qual assunto tratava, qual aspecto da personalidade, qual crença e assim por diante. Essa foi a primeira rodada da análise dos dados, foi o modo com que fez a sua codificação.

Mas ainda assim o quebra-cabeça não estava pronto. Ainda existiam muitos pequenos pedaços de dados, muitos códigos. Foi quando ele relembrou de sua pergunta de pesquisa: ele queria despertar emoções. Então ele revisitou a teoria e começou a enxergar naquele caos maneiras de se aproximar de Marina. Os dados mostravam que a personalidade dela era introspectiva e que ela enxergava o mundo romanticamente, então ele ligou esses pontos em uma estratégia de despertar emoção que fosse sutil e profunda. E assim, ligando os pontos, unindo as informações, tirando conclusões, ele chegou em várias estratégias. Cada uma das estratégias era então uma categoria (fruto de relações entre códigos e de abstrações) que respondia a sua pergunta de pesquisa.

Ao fim, Vinicius tinha uma lista de 15 estratégias de como despertar emoções em Marina para conquistá-la. Finalmente, os resultados! Agora ele já havia feito a descoberta, já tinha produzido conhecimento e poderia testar sua teoria estava certa. Além disso, ele poderia escrever tudo que descobriu em um documento seguindo as instruções de outro texto do professor Rodrigo, mas isso eram planos para uma homenagem a sua garota dos sonhos no futuro. O que resta saber: Vinicius conseguiu conquistar Marina?

A grande sacada

Vinicius se preparou para colocar todas as estratégias em prática. Apesar de algo o incomodar, partiu para a universidade para ter o primeiro contato com a garota. Andou em sua direção e tentou falar… Mas ela o ignorou. Ficou perplexo, sem acreditar. Era assim que acabaria sua história?

Estava desanimado. Conversando com Manuel, recebeu a proposta de ir ao bar e pensar melhor sobre tudo que tinha acontecido. Chegando lá, o amigo estava com uma série de outros colegas estudantes. Eis que um deles começa a falar do fim de um relacionamento seu. E Vinicius já se conforta, já não era o único com problemas nessa área.

O rapaz falante, que se chamava Augusto, reclamava bastante. Dizia coisas como: “a gente não tinha nada a ver”, “ela era meio estranha”, “fiz de tudo”, “a gota d’água foi o livro”. Vinicius ficou curioso e pediu para falar mais sobre o livro. A resposta foi: “ela me disse que gostava de ler e eu perguntei a ela: pra que ler?”. Augusto relatou a irritação da garota e o fim de tudo. Mas algo intrigava Vinicius naquela história toda e perguntou: “Quem era essa menina, a gente conhece?”. E respondeu: “O nome dela é Marina”. Nosso herói deu um grande gole na bebida e fez uma última pergunta: – Quando foi isso? – Ontem!. Vinicius saiu correndo do bar enquanto Manuel gritava: “Não vai pagar não, é, rapaz?”.

O conquistador indomável teve um momento eureka e percebeu uma limitação de sua pesquisa. Na sua busca por compreender o amor, só considerou o papel da musa e não o dele. Ele não estudou a si mesmo e seu papel, apenas o ponto de vista dela. Augusto havia descoberto aquilo do pior jeito: ele não tinha nada a ver com Marina. Vinicius havia descoberto em suas pesquisas que ela era tímida, gostava de estudar, era romântica… O que o ajudava a entender que o jeito grosseiro do ex não a encantou. Mas Vinicius era o oposto e, logo percebeu que tinha mais chances do que parecia e que sua Musa havia o ignorado pois estava ainda aflita com o fim do seu relacionamento.

Toda a pesquisa e as novas informações o ajudavam a ter uma sacada ainda maior. Ele havia desenvolvido muitas estratégias mas apenas algumas tinham a ver com a admiração de Marina pelo universo dos livros e conhecimento. Ao mesmo tempo, essas estratégias eram as que mais tinham a ver com quem ele era. Agora tudo estava claro e fácil: ele só precisava utilizar as estratégias que mais valorizavam esse universo e quem ele realmente era, alguém que também admirava as mesmas coisas de sua musa. Ali Vinicius percebeu que por mais perfeita que seja uma pesquisa, nada substitui a inteligência do pesquisador e sua capacidade de refletir. E que a pesquisa ajuda em um processo intenso e constante de entender o mundo. Nenhuma pesquisa encerra totalmente uma questão. Sempre há algo mais a entender, sempre há uma questão a resolver.

No outro dia, viu a garota carregando livros pelo corredor. Iniciou uma conversa sobre os livros e terminou explicando toda sua pesquisa para conquistá-la. Naquela noite, os dois apareceram na sala do professor Rodrigo e disseram que vieram agradecer por inspirar a razão de estarem ali. Ele agradeceu e perguntou: – posso compartilhar essa história com os outros alunos…?

Professor Rodrigo

Doutor em Administração, professor e pesquisador há mais de 10 anos.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.