Esse texto vem como uma resposta ao que acompanhei por anos com amigos, muitos músicos, inclusive. Desde o colégio me envolvi e observei vários debates que até terminaram em briga e xingamentos. Tudo isso gira em torno de uma simples pergunta: o que é música boa?
Cada um tem uma ideia do que é música boa. Isso porque todos nós temos uma vivência íntima com a música. No entanto, é preciso um certo cuidado para termos um porto seguro diante da variedade de pontos de vista sobre o assunto.
Neste texto uso a teoria da experiência do consumidor para responder a esse questionamento. Meu argumento é que músicas diferentes servem para coisas diferentes e devem ser julgadas considerando essa consideração juntamente com a visão experiencial.
Os amantes do rock contra os fanáticos pelo pop
As discussões que eu acompanhava geralmente tinham dois lados. No primeiro, estavam os que acreditavam que uma música precisava ser rica, complexa e profunda para ser boa. É o caso da música clássica e de boa parte do rock.
No outro lado, estavam os que defendiam a música pop, com suas batidas e letras simples, prontas para consumo rápido. Eles sempre argumentavam que a música seria boa se muitas pessoas gostassem. Quanto maior e mais frenética fosse a multidão de fãs, melhor seria a música.

Cada um defendia sua bandeira e brigas homéricas aconteciam diante dos meus olhos. Cada um se proclamava vencedor do debate e ninguém se entendia. Hoje, vejo que eles nunca chegariam em consenso porque estavam medindo uma mesma coisa com réguas diferentes.
Minha proposta aqui é trazer um parâmetro adequado para analisar a experiência com música. Observando essa questão sob a perspectiva da experiência podemos ter um denominador comum e chegar em uma conclusão assertiva. Curiosamente, por esse ângulo, talvez os dois lados saiam satisfeitos.
Compreendendo a experiência
Para que entendam minha conclusão, é preciso explicar o que é experiência do consumidor. Vamos considerar aqui os ouvintes de música como consumidores de música. De algum modo, estão utilizando a música para obter, no mínimo, algum sentimento.
Já a experiência é um conceito composto por várias noções. Falo disso em mais detalhes no meu livro “O que é experiência do consumidor? Investigando a vida no consumo” (clique aqui para saber mais sobre ele). Mas para fins deste texto vou dar uma breve explicação.
O termo experiência pode ser entendido como a maneira com que age e reage um ser humano ao mundo ao seu redor. A pessoa é estimulada por elementos externos e realiza ações, assim como tem sentimentos e percepções diante desses elementos.
No caso da música, o ouvinte se coloca em contato com estímulos: a música de uma banda, elementos visuais (como capas, cartazes, fotos, vídeos), histórias (como foram shows da banda por parte de amigos) dentre outros. Ele também age, é cocriador da experiência, escolhendo músicas, dançando… Tudo isso faz com que o ouvinte tenha sentimentos diversos, bons ou ruins, animadores ou que acalmam, fazendo se mexer ou refletir e assim por diante.
As experiências musicais
Quando observamos toda essa dinâmica experiencial de estímulos, ações, reações podemos identificar certos “formatos” na experiência. É como se formassem uma unidade a qual chamo de estados existenciais (falo bem mais disso no meu livro “O que é experiência do consumidor?“). Algo como uma maneira de sentir, um estado de espírito.
Sendo assim, diferentes tipos de música geram diferentes tipos de experiências musicais nos consumidores, gerando também diferentes estados existenciais.
E agora vai o grande salto na compreensão da qualidade de um som que proponho: o rock gera uma experiência diferente da do pop. Se são experiências diferentes, o julgamento deve ser diferente! Devemos julgar a música pop pelo que ela pode gerar no ouvinte, assim como o rock deve ser analisado pelo que consegue despertar no seu fã.

Em outras palavras, para resolver o problema da música proponho que a régua de julgamento seja a experiência gerada pelo artista. A música mais sofisticada e a popular geram experiências diferentes, é como se elas servissem para coisas diferentes. Como podemos julgar uma bola de futebol e um alicate da mesma maneira?
Vou mostrar para vocês alguns exemplos com a observação de que a música pode despertar diferentes experiências mesmo para uma mesma música. O que não quer dizer que não existam padrões a serem identificados.
A experiência da música clássica
Já notaram como são as audições de música clássica? Em teatros onde as pessoas ficam paradas e em silêncio profundo. Inclusive, falar no meio de uma sessão é uma ação reprimida pelos que estiverem perto. Isso tudo porque a experiência da música clássica envolve a contemplação dos diversos detalhes do som. Alguns dizem que o contato com uma música tão profunda e complexa que leva uma sensação de elevação espiritual.
A experiência do forró estilizado
Quando observamos os consumidores de forró estilizado notamos algo diferente. Em vez de as pessoas estarem paradas, geralmente elas dançam e cantam em alto e bom som. Não ficam calmas e tranquilas, ficam animadas. As letras românticas também trazem sensualidade e, em shows, pode inspirar casais a trocarem carícias, além da própria dança trazer esse aspecto em si.
A experiência crítica do rap
Já o rap e seus derivados tem uma estrutura musical simples mas letras longas e impactantes. Podemos encontrar muitas críticas também. Isso faz com que a experiência do rap seja voltada ao pensamento, de reflexão e, até mesmo, de ação para mudar algum aspecto revoltante da realidade.
A experiência do rock
O rock é um estilo bastante rico e diverso, com vários gêneros e subgêneros. Podemos notar alguns traços marcantes em vários deles. O rock tende a gerar uma sensação de energia e força que faz com que os seus ouvintes até simulem conflitos em “rodas” nos shows. As letras potencializam esse aspecto induzindo a reflexões sobre si mesmo e as relações com outras pessoas. Quanto mais pesado é o rock, mais intensa é a sensação.
Afinal, o que é música boa?
O grande ponto em entender as experiências musicais é que seus ouvintes buscam diferentes estados de espírito em cada uma delas. E a música tem um formato justamente para provocar esses estados.
Sendo assim, música boa seria aquela que faz o ouvinte se sentir do jeito que ele gosta, a música que transporta ele para um lugar que ele se sente confortável. Ou, em outras palavras, a música boa é aquela que faz o consumidor experimentar o estado existencial que ele aprecia.

Nessa perspectiva, um músico bom seria aquele que consegue criar um contexto de estímulos que desperte as experiências esperadas. O artista seria um criador de universos que faz com que as pessoas tenham determinadas ações e sensações.
Na briga entre roqueiros e fãs de pop, os dois estão certos. Cada estilo desperta neles experiências que apreciam e por isso defendem tão apaixonadamente seus artistas. O maior juiz da música é a alma do ouvinte, sua cabeça e seu coração, o que pensa, sente e faz. É porque a música os leva a mundos tão especiais e os toca tão profundamente que fazem o que fazem, até brigar.
Onde houver um ouvinte feliz, existe música boa. Por outro lado, a música que nada desperta, que não faz as pessoas se transportarem para universos mágicos, que não faz sonhar de olhos abertos, não é boa.
Saiba mais sobre experiência do consumidor lendo meu livro: O que é experiência do consumidor? Investigando a vida no consumo. Tenho um texto falando em mais detalhes sobre ele, basta clicar aqui para acessar. Ele está a venda e você pode adquiri-lo neste link aqui. Mas se deseja acessar a lista dos meus livros, acesse o link “Livros” no menu ou clique aqui.
Segue o resumo do livro abaixo:

Empresas como a Apple, a Disney, a Mercedes-Benz e a Starbucks mostraram que é necessário compreender os consumidores para criar produtos e serviços encantadores. Esse entendimento não é nem novo e nem segredo.
Já se falava da importância desse tipo de investigação desde as críticas sobre a miopia de marketing e o foco excessivo dos especialistas no produto em detrimento do consumidor. Também, nas discussões do senso comum que geraram expressões como “o cliente sempre tem a razão”. A novidade é que hoje dispomos de ferramentas teóricas voltadas para investigar o consumo.
Mas, afinal, o que é experiência do consumidor? Este livro responde a essa questão por meio de definições e explicações de conceitos importantes. Nestas páginas, você encontrará uma definição que sintetiza o conhecimento produzido pelos autores mais influentes da área. Cada elemento da definição é explicado em profundidade, com a apresentação de vários conceitos úteis ao longo do texto. O material vai além e traz uma discussão inovadora e ampla da experiência como manifestação de vida do consumidor.
O texto foi escrito com termos simples para ser facilmente compreendido. Muitos exemplos e ilustrações também fazem parte da leitura. Ele é útil para estudantes, pesquisadores, empresários, profissionais de marketing e todos aqueles que desejam aprender a analisar o consumo. Esse conteúdo permitirá compreender a experiência do consumidor de maneira precisa e estruturada, facilitando a criação e o aprimoramento de produtos e serviços para organizações de todos os tipos.
