Oppenheimer: a experiência como explosões de pensamento

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Dois filmes que proporcionam duas diferentes de experiências do consumidor estão fazendo um grande sucesso. Barbie aposta nas interações socais, na alegria e nem tanto assim na história que passa na tela. Oppenheimer estimula reflexões em uma dinâmica introspectiva que conquista o consumidor com uma narrativa complexa.

Aqui vai um alerta e outra consideração sobre as experiências. É possível que alguns pequenos spoilers sejam feitos sobre o segundo filme mencionado. O curioso é que para falar sobre a experiência de Barbie não corri esse risco. Isso revela a diferença entre o sucesso dos dois filmes. São apostas diferentes: um deles depende do consumo em si e o outro do que acontece antes e depois dele.

É grande o contraste entre os dois filmes, assim como as duas experiências

Ainda sobre esse paralelo, é possível notar o contraste que ajudei você a perceber pelos próprios cartazes. Notem as cores, a claridade e a escuridão, as posturas e expressões do rosto, além da própria vestimenta dos personagens. Impressionante como também refletem as experiências dos consumidores e suas características psicológicas e culturais. Isso é tão curioso que o meme “Barbenheimer” apareceu tentando unir dois polos (que se tornam engraçados de tão opostos).

Apesar desse paralelo chamar a atenção, meu foco aqui é entender melhor qual é o valor da experiência em Oppenheimer, uma vez que já comentei sobre o de Barbie em outro texto. A ideia é fazer uma breve investigação do que as pessoas perceberam como interessante, relevante e valioso na vivência com o filme.

Mapeando o valor da experiência em Oppenheimer

O primeiro passo para entender o valor de uma experiência é entender os estímulos em jogo, ou seja, o produto ou serviço que, no caso, é o filme, assim como todas as intervenções organizacionais com que consumidor teve contato. Conforme a sinopse, a película mostra a história do professor e pesquisador Oppenheimer no desenvolvimento da bomba atômica e as consequências de seu uso. É uma história longa, complexa, com trama densa, muitos personagens e muita informação. Vale considerar também que a experiência gira em torno da sala de cinema, mas também muita propaganda e informações compartilhadas na internet.

Agora vamos pensar nos consumidores, as pessoas que assistiram o filme, que se prepararam para ir a sala de cinema, que comentaram com amigos depois da sessão e assim por diante. Vamos fazer isso de maneira organizada, pensando na experiência em partes e não ela toda de uma vez, ou seja, por meio das cenas da experiência pelas quais o consumidor passou.

Imaginem que um filme profundo como esse exige um grande esforço e concentração. Com tanta informação em jogo, podemos imaginar que o consumidor teve de interpretar o filme, pensando, por exemplo, em como foi difícil construir a bomba, em se as emoções do professor faziam sentido, na falas profundas dos personagens e assim por diante. A interpretação é parecida com o julgamento que esses consumidores podem ter desempenhado devido as questões éticas da história, muitas figuras importantes como presidentes e pesquisadores famosos envolvidos com grandes prejuízos humanos, disputas pelo sucesso, poder entre outros. Por outro lado, pode ter havido também admiração já que há personagens muito inteligentes e com grandes feitos, como foi a própria bomba atômica.

Lembrando que essas cenas, as partes da experiência ou cenas da experiência, podem ter acontecido ao mesmo tempo, de maneira paralela e se misturam em processos mentais e emocionais. Ao pensar nelas, já conseguimos entender melhor o que está em jogo na vivência com o filme. Mas podemos entender bem mais sobre todo o processo.

Se você for conversar com alguém que viu o filme e esse alguém realmente prestou atenção e realizou um bom esforço de interpretação (cenas da experiência que comentei), ela pode dizer também que gostou de como a história foi construída, como a trama dos personagens foi bem feita. Nesse momento começa a aparecer o valor da experiência, ou o que as pessoas gostaram no produto.

Mas podemos ir além entendendo as reações das pessoas ao que gostaram. Imaginem que alguém que gostou da história bem construída teve uma admiração pelo diretor do filme ou uma sensação de estar diante de uma grande obra do cinema. Essas são as reações experienciais ou o impacto da produto e elementos organizacionais no consumidor.

Até agora falei apenas do que aconteceu na sala de cinema. Mas a experiência é toda a vivência do consumidor relacionada ao produto ou as organizações. Um maneira de visualizar isso é pensar que o público, antes de comprar o ingresso de Oppenheimer, fez uma busca no google sobre o filme. Provavelmente viu que ele conta com excelentes avaliações do público e da crítica especializada e já começou a criar uma simpatia pelo filme desde antes de assisti-lo. Essa movimentação do público e da crítica, assim como as diversas notícias sobre o filme, quando passam pelo contato do consumidor e o influenciam, chamamos de contexto.

Os altos níveis de aprovação do filme pela crítica (93%) e da público (91%)

Por outro lado, percebeu como algumas pessoas criticaram o filme? Disseram que ele foi chato, longo, difícil de entender… Isso aconteceu porque a experiência vai variar de acordo com quem é a pessoa. Nesse caso, podemos imaginar que essas pessoas tinham um gosto diferente, crenças incompatíveis com o filme ou não tinham habilidades de interpretação capazes de extrair informações relevantes da complexa história. As características dos consumidores podem ter impactado na experiência, como já comentei em outro texto.

Essa maneira de analisar a experiência do consumidor são conclusões de minhas pesquisas e que me permitiram construir uma estratégia de Mapeamento do Valor Experiencial. Demonstrei para vocês como foi meu olhar sobre a questão, agora vou dizer a vocês as minhas conclusões de o que tem de valioso na experiência de Oppenheimer.

Um estrondo silencioso por dentro da mente

A história do inventor da bomba atômica tem como valioso oferecer profundas reflexões e aprendizados ao público. O que há de certo e errado sobre a bomba e quem a fez, como foi o processo de criação, as grandes inteligências envolvidas, os egos, o poder, como a vida de um intelectual é permeada por relações singulares, o florescimento do amor e de amizades conturbadas em meio a muitas questões importantes em disputa, até mesmo o futuro da humanidade.

Por conta da experiência se concentrar em reflexões, o pensamento é uma das maiores forças humanas envolvidas. Os consumidores introspectivos ou que flertam com a inteligência conseguem tirar maior proveito do filme. Não é a toa que, até mesmo para os críticos, o filme é um sucesso. A crítica é uma atividade de pensamento das mais intensas.

Ao mesmo tempo, a alta qualidade cinematográfica promove uma experiência de admiração e a sensação de estar em contato com a excelência. Para os que possuem uma sensibilidade a arte, muito há de valioso na experiência, que gera a impressão de estar em contato com uma obra-prima.

Ao mesmo tempo, o filme entretém no sentido que leva o leitor a conhecer uma história humana, que provoca simpatias e antipatias por pessoas que podem reconhecer em nosso cotidiano. Inveja, ambição, desejo de ajudar, amor ao seu povo, defesa de valores nobres, paixões carnais, coragem, covardia, tudo isso em uma narrativa bem construída faz as pessoas se conectarem e simplesmente se divertirem ao conhecer a história de um físico teórico. Isso explica o relativo apelo popular no sucesso evidente.

Como um estrondo silencioso dentro de mente dos consumidores, o filme marca por fazê-los pensarem de maneira profunda e admirarem silenciosamente o espetáculo de inteligência e emoção que envolve um arma atômica. Se Barbie deixa as pessoas felizes fora da sala de cinema, do lado de dentro Oppenheimer as deixa maravilhadas e intrigadas por 3 horas em uma experiência grandiosamente explosiva.

Professor Rodrigo

Doutor em Administração, professor e pesquisador há mais de 10 anos.

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